Logo depois do almoço João apareceu sem o menor alarde.
Toca o telefone do hotel. Trim! Trim! Trim!

-Alô? Senhor Bernardo? - disse o recepcionista enterrompendo meu almoço. Coisa que me deixa extremamente feliz [leia-se com MUITO SARCASMO]
-Sim, sou eu. Pode falar - disse eu meio inquieto.
-O seu amigo João está aqui.
-Pode passar.
-Alô, neguinha! Desce aí, estou te esperando!
Falei com um tom de surpresa:
-Aqui em baixo? Nossa, calma aí, vou escovar os dentes e desco já, já!
Quem me conhece sabe que meu "já, já!" leva muito mais do que o real sentido do já, já.
Desci e ouvi um:
-O neguinha, cê é enrolado, hein!?
Ok, ele tem razão. Gosto da sua sinceridade.
Pegamos o carro e assim em risadas fomos ao sítio. Sempre rimos muito e falamos de projetos gastronômicos e bobagens mil. Rimos e nos divertimos.
Que lugar lindo. Puta seu.
Enquanto ele mexia na terra fiquei lá pensando na vida. Lendo livros de sustentabilidade e tentando estudar a sombra de um limoeiro, carambolas ainda verdes, porém amarelas.
Baixas figueiras sem folhas sofriam ao sol. Coitadas atemóias secas compunham a paisagem.
Vi ali uma gastronomia ainda crua.
A horta ainda no projeto. Ainda só demarcada.
As frutas verdes. Já imaginei um belo CEVICHE sendo preparados com esses limões galegos. Se você gosta de frutos-do-mar PREPARE-SE, MEU AMIGO!
Esse pode ser um dos seus pratos preferidos! É originário de todo o pacífico, por envolver frutos-do-mar e abacates.
Pegue os frutos-do-mar que você mais gosta. Lula, polvo. peixes variados, atum cru, camarões...
Corte-os em pedaços graudos. Misture com abacate em cubos, uma quantidade legal de coentro fresco picadinho, umas duas cebola roxa, suco de limão até cobrir a mistura crua, azeite de oliva de boa qualidade, e um pouco alho amassado.
Deixe repousar por umas 3 horas, ou até o peixe ficar cozido. É ISSO AE. OS FRUTOS DO MAR COZINHARÃO NO LIMÃO.
Originalmente nos países do Pacífico se come com os choclos, uma espécie de milho. Se não houver choclos podem acompanhar deliciosas tortilhas ou até em ÚLTIMISSIMA INSTÂNCIA o tal do Doritos. Eu pessoalmente acredito no pode do milho não industrial e tão cheio dos "antes".
Conservantes, umidificantes, espessantes, acidulantes. Vá catar coquinho. Blé!
Depois dessa ida à Alpha. Voltei a realidade e a hortinha demarcada.
Carpimos arduamente uns 2m² de terra [rsrsrs...] e resolvemos que era hora de nos alimentar.
Mexirica era o objetivo.
Descemos um pouco a colina menor e peguei com pressa aquilo que parecia ser uma doce mexirica. Doce ilusão, ou melhor AZEDA ilusão. Fiquei como se houvesse um centro de gravidade em meu nariz. Fiz um bico bem apertado. Meus olhos de fecharam. Cuspi. Blé!, que azedume.
Era limão.
Eis que vou a outra árvore vizinha. Azeda ilusão. M$#%&!!!!!
João que não se aguentava de rir perguntou ao caseiro:
-Viu, seu Tarciso, as mexiricas estão aonde?
-Lá em baixo, Jão! - respondeu como se fosse algo óbvio.
E eu ainda com a cara amarrada. Azedo.
Pegamos o carro atravessamos galinhas, pintinhos, cavalos, cachorros, filhotes, vacas e o sr. que arrenda a terra.
Deixamos o carro numa boa altura e descemos a pé. Mamma mia!
Que descida.
Ouvimos Toc!, Toc!, Toc! e não sabíamos d'onde vinha.
Olhamos para cima. Era um PICA-PAU de cabeça vermelha. Jóia!
Ganhei minha tarde.
Pegamos mexiricas. Azedas por sinal. Na volta, já dentro do carro, escutamos AHHH!. Era uma MARITACA verde. Passou. Voou, gritou e nos surpreendeu.
Que tarde!
Voltamos a sede do sítio, conversamos mais um pouco e assim fomos embora..
Que segunda-feira.
Tudo isso é gastronomia. É a maritaca que ajuda a polinizar as árvores que um dia darão frutos e condirão meu CEVICHE, é a vaca, por motivos óbvios e a tarde linda que me encanta e me azedou a boca.
Azedo.