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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Intimidade na Cozinha!!! Ui!


Caros leitores,

O ambiente da cozinha trás que tipo de sentimento a você? Qual a sensação que primeiro se manifesta no seu coração ao ter de entrar na cozinha e preparar algo? Ter que chegar lá ferver uma aguinha, cozinhar umas batatas e fazer um purê simples.
Te dá medo? É indiferente? Você fica felizão e vai logo se anima frita bifes, ovos, lava umas alfaces e faz uma bóia bacana... Ou mesmo você não é muito afim de uma cozinha e prefere um delivery?
Vejo que nossa interação com a cozinha está mudando gradativamente. Nos séculos passados a cozinha era um lugar puramente voltado para a serventia. Não se comia formalmente em um ambiente que poderia cheirar a alho refogado.
Cozinhava-se e então era servido na sala de jantar, Buffet ou a inglesa. Os cozinheiros mal eram vistos, salvo os casos do consagrados mestres cucas parabenizados pelos convidados.
Com o tempo e a grande urbanização as moradias subiram de preço e ficaram menores. Tivemos de nos readequar. Nos adaptarmos a realidade das cidades, dos apartamentos, opa APERtamentos.
Casas menores, apartamentos menores e mais caros trouxe a idéia das casas americanas dos anos 50 e 60 ao mundo ocidental. Pensamos: porque precisamos isolar a cozinha e a própria dona de casa, do resto da família. Façamos um grande ambiente amplo que una o paizão na TV e a mãe na cozinha.
Eu diria que “o cozinhar” como atividade de interação familiar e social teve sua popularização mais ou menos nesta época. Na qual não era mais preciso um chef ou cozinheiro ser contratado para a satisfação de todos.
Os próprios convidados cozinhavam para si mesmos. Interagiam e isso é lindo! É algo que me dá arrepios! Fantástico!
Surgem hoje as confrarias, clubes, jantares e festas de babettes entre amigos e familiares. Vejo que, por exemplo, na casa de minha avó a cozinha é serventia ainda. É para preparar o alimento e levar a sala. Ocorre no máximo um lanchinho íntimo entre os íntimos. Na geração de minha avó dos anos 40 e 50 a cozinha era ainda grande, mas não era ambiente de confraternização.
Fazia-se jantares nababescos, mas não na cozinha.
Vejo minha vida mais feliz por ver pessoas mais dispostas a estar em cozinhas. A cozinhar e a aprender sobre cozinha. Ter intimidade com a cozinha. Amar a cozinha. A sua história. Isso tudo ainda prensado entre a rotina e a preguiça.
Agora se você, ouvinte conseguir se meter as vezes a cozinhar na sua rotina, AMÉM! Um viva a você! Um viva a você que é capaz de fazer qualquer coisa. Basta não ter vergonha, nem medo e saber que não existem mistérios na cozinha, somente falta de prática e paixão!

Continua semana que vem...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Você, eu e os processos alimentares!


Os almoços na casa de vovó madalena eram verdadeiramente algo muito comum nas outras famílias. Mas como todo bom neto fiel, sempre achei sua comida e seus almoços melhores entre os que eu já havia participado. Passávamos horas sentados contando historias antigas, contanto receitas, rindo e discutindo...passávamos muito tempo ouvindo meu pai contar sempre as mesmas histórias.
Tenho muito medo que tudo isso um dia acabe.
Meus caros, presenciamos nas últimas décadas uma perda da qualidade das relações familiares e sociais. Somos tendenciados por grandes corporações mundiais a ter um certo padrão de consumo e comportamento com relação ao alimento.
A comida tem virado um empecilho na vida de muita gente que come somente para parar em pé. Come, pois precisa estar alerta e ser produtiva nas próximas horas. Come com pressa e o comer vira secundário.
O tempo que destinamos diariamente para comer tem sido cada dia menor. Esse curto período esmagado pela rotina nos transforma em patinhos na lagoa para as empresas... ficamos sujeitos a campanhas de marketing e a conselhos da vizinha.
Não temos tempo ou conhecimento básico mais sequer para ter uma hortinha de temperos. Tudo é focado no preço, na vontade, e principalmente no TEMPO.
Tudo é processado e repito outra vez aqui: NÃO PARTICIPAMOS E CONHECEMOS POUCO DOS PROCESSOS QUE ENVOLVEM O QUE COMEMOS.
Nossos caríssimos amigos americanos criaram um sistema de comércio pós-guerra para o crescimento das suas próprias organizações. Essa foi a bomba responsável pelo nosso padrão de produção e de consumo alimentar.
Os fantásticos almoços e jantares vêm sendo procrastinados pois não há, como antes, um convívio regular em torno da mesa. Estamos indo num sentido errado. Estamos perdendo a prática de comer em comunhão.
Tenho saudades dos almoços da vovó... das discussões para pegar primeiro aquele suculento pedaço de lasanha.
As gerações de agora sofrem de falta de legado familiar. Deixam de absorver a cultura da própria família e de difundi-la com amigos pelo pouco tempo na mesa e por muito tempo passado na frente da televisão.
Não podemos reclamar da nossa sociedade, pois ela nada mais é do que o reflexo das nossas relações familiares. Quanto tempo você passa em torno da mesa? Esse tempo é produtivo? Se Jesus escolheu realizar uma ceia como último momento de comunhão, estar em torno de uma mesa deve ser algo útil, não acha?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Orgias dominicais da Vovó!!!


Quando eu, ainda menino, sentia o cheirinho do domingo meu estômago sabia melhor do que eu que iríamos comer bem. Eu morava em Curitiba naquela época. E, como de costume, todos os domingos almoçávamos na casa da vovó Madalena.

Sempre notei que duas gerações acima da nossa existe uma sapiência poderosa e densa. Dá até para cortar com faca. Minhas avós sempre foram grandes cozinheiras, mas em especial a mãe de meu pai. Esta sim, direi que, por tradição de família herdou um legado de conhecimento gastronômico maciço como um bom pão italiano.

Dona Magdalena fez parte de uma linhagem de exímias cozinheiras e ousados cozinheiros. Desde seu bisavó, um coronel pernambucano ao seu filho do meio, já falecido num triste acidente. Todos não tem um mas sim todos os pés, vontades, e criatividades na cozinha e no cozinhar. No criar. Inventar.

Os famosos almoços de domingo de minha avó tradicionalmente eram estartados por uísques, vinhos, cervejinhas, refrigerantes, sucos e bebiricagens mil. Ás 11 horas tudo começava. E ia até o desabrochar da ultima sobremesa sobre a linda mesa seguida religiosamente do cafezinho. Certas vezes por um licorzito de chocolate ou de amêndoas ou o preferido da turma: Cointreau bem gelado. Todo esse cerimonial gracioso, em geral, ocorria lá pelas 6h da tarde.

A tal ponto o jantar já estava fadado a nada. A não existir. Ou fadado mesmo a outro cafezito ou café com leite. Mas nunca desconsiderando um leve caldo quente. Digo leve no que tange ao gosto e textura.

Isso porque muitas vezes era um caldo verde com queijos, azeites e comidas de leveza não verdadeira. Isso também quando o jantar não era determinado a resumir-se a qualquer modesta, porém deliciosa, sobra do almoço. A sobra era requentada no enorme microondas de uns 35L ou ao próprio fog brando. Essa fuga noturna era comida as escondidas por gatunos famintos e gulosos ou em hora oportuna da siesta que tomava conta de todos.

Siesta é aquele famoso sono após o almoço, o que no nosso caso leva até o jantar e em muitos casos ao outro dia.

Esse ritual contaminava os participantes da orgia alimentar proporcionada pela minha vó semanalmente. Logo que atingíamos corados e culpados a bendita plenitude gástrica todos iam se deitar.

O ritual era viciante e de alta periculosidade, pois comprometia todo o andar do domingo. Era a causa de uma incapacidade de cumprir compromissos, vontades e anseios dominicais.

Causa alcalose metabólica (a tal da sonolência). Isso segundo médicos participantes assíduos das orgias gastronômicas. Dizem também que comer de mais dilata o estômago, dá falta de ar.

Afirmam causar leve impacto negativo sobre a capacidade de raciocínio e lentidão nos reflexos. Aumento da quantidade necessária de alimento para saciar a fome.

Para mim hoje aqueles almoços eram como experimentar um pouquinho do céu. Tinha tudo que eu precisava: muita comida e comida deliciosa, família, amigos, boa músicas e claro a siesta depois do almoço.

Continua semana que vem...